
Cidades 'escondem' quase 2 mil espécies de abelhas, revela pesquisa
A lista é longa: maçã, pera, cereja, ameixa, pêssego, damasco, morango, amora, framboesa, melão, melancia, pepino, chuchu, maracujá, laranja, limão, tangerina, caju, romã, kiwi, graviola e café. Se você já consumiu algum desses itens, agradeça a uma abelha. Elas são as responsáveis pela produção da maioria dos frutos comestíveis, sejam eles cultivados ou não.
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Não há dúvida de que as abelhas são fundamentais para a vida humana no planeta. Mas com o avanço da urbanização, o que tem acontecido com esses insetos?
Partindo dessa reflexão, um grupo de 11 pesquisadores de universidades de Minas Gerais — Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e Universidade Federal de Uberlândia (UFU) — realizou uma revisão global sobre o tema.
A equipe, composta por pós-doutores, estudantes de doutorado e professores, montou um banco de dados inédito, cujos resultados foram publicados neste ano na Conservation Biology, uma das principais revistas científicas do mundo. O objetivo foi quantificar as abelhas em áreas urbanas utilizando registros disponíveis na literatura internacional.
Abelha Iraí (Nannotrigona testaceicornis) nidificando em um tronco de árvore (Caesalpinia pluviosa) de uma cidade.
João C. F. Cardoso
"Esse estudo surgiu a partir da ideia de preencher a lacuna sobre a diversidade e distribuição das abelhas nas cidades do mundo. Enquanto as abelhas são o principal grupo de polinizadores, gerando diversos benefícios para o funcionamento dos ecossistemas e para a saúde humana, a urbanização é um importante fator de impacto ambiental, gerando mudanças drásticas no uso da terra", explica o biólogo João Custódio Fernandes Cardoso, professor da UFU e um dos integrantes da pesquisa.
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A força da biodiversidade nas cidades
A partir da busca, a equipe encontrou 1.981 espécies diferentes de abelhas distribuídas em 9.691 registros. É um número impressionante, pois representa cerca de 10% de toda a biodiversidade conhecida de abelhas, estimada em aproximadamente 20.900 espécies.
Apesar de expressivos, os dados ainda podem estar subestimados, já que a maioria das cidades, especialmente em regiões tropicais e subtropicais menos desenvolvidas (e hiperdiversas), ainda não foi amostrada.
Abelha Iraí (Nannotrigona testaceicornis) nidificando em um tronco de árvore (Caesalpinia pluviosa) de uma cidade.
João C. F. Cardoso
O estudo comparou as proporções das sete famílias de abelhas na biodiversidade geral com aquelas observadas nas cidades. A família Apidae, por exemplo, compreende 30% das espécies no total e 35% das encontradas em ambientes urbanos. Proporções semelhantes foram observadas nas famílias Halictidae (22% no total e 24% urbano) e Megachilidae (20% no total e 19% urbano).
Segundo os pesquisadores, isso indica que a biodiversidade urbana segue os padrões gerais de distribuição.
Um dado interessante sobre a família Apidae foi a diferença regional. Em regiões não tropicais, 27% das abelhas pertencem a esse grupo, enquanto nos trópicos o valor sobe para 69%. O estudo apontou que essa prevalência está relacionada à maior diversidade de recursos florais nos trópicos. Algumas abelhas dessa família possuem necessidades específicas: machos da tribo Euglossini coletam fragrâncias para atrair fêmeas; a tribo Centridini coleta óleos florais; e a tribo Meliponini (abelhas sem ferrão) busca resinas para construir e impermeabilizar seus ninhos.
Protagonismo das abelhas solitárias
Centris tarsata nidificando no solo, o que não seria possível se a superfície fosse impermeável, por exemplo, com concreto ou cerâmica.
Lorena B. Valadão-Mendes
Outro dado que chamou a atenção foi a quantidade de abelhas solitárias registradas nas áreas urbanas. Elas são a grande maioria e se destacam na paisagem das cidades:
Abelhas solitárias (49,8%): não vivem em colônias. Cada fêmea constrói e provisiona seu próprio ninho de forma independente.
Abelhas sociais (33,8%): vivem em colônias e cooperam na construção do ninho e no cuidado com a prole, mas não possuem castas (rainhas, operárias e zangões).
Abelhas cleptoparasitas (11%): não constroem ninhos. As fêmeas depositam seus ovos em ninhos de outras abelhas hospedeiras, que acabam cuidando da sua prole.
Abelhas eusociais (4,7%): possuem organização avançada, com castas e divisão de trabalho (como a famosa Apis mellifera). Surpreendentemente, foram o grupo menos expressivo nas cidades.
"Apesar de ainda não termos um cenário para toda a biodiversidade global, é provável que essas proporções sejam semelhantes", destaca Cardoso.
Cidades não são 'desertos biológicos'
Epicharis flava polinizando aceroleira (Malpighia emarginata). Além do pólen, as abelhas coletam óleo das flores, usado na construção de ninhos e na alimentação das larvas.
João C. F. Cardoso
O levantamento dos pesquisadores mineiros quebra o mito de que as cidades são "desertos biológicos", já que a presença de insetos polinizadores denota um ambiente diverso.
Vias públicas, praças, parques e reservas fornecem matéria-prima e servem como fontes e locais de nidificação para a sobrevivência das espécies.
A preservação das áreas verdes urbanas é essencial para a saúde física e mental da população humana, influenciando a regulação microclimática, hídrica e a qualidade do ar. Além disso, as abelhas produzem itens de grande valor econômico e social, como mel, própolis e geleia real. A meliponicultura (criação de abelhas sem ferrão) pode, inclusive, ser praticada de forma terapêutica em ambientes urbanos.
Abelha-das-orquídeas
Guilherme Aguirre
Para garantir que o mundo continue funcionando, é preciso cuidar de quem faz a polinização. "A princípio, não matar as abelhas já é um grande passo", alerta João Cardoso.
Ele explica que muitas abelhas sem ferrão acabam mortas pela população por falta de informação, além do grande perigo do uso de pesticidas.
"Ainda, é possível ter estratégias mais ativas que ajudem as abelhas, como a conservação de áreas verdes e o plantio de espécies vegetais que ofereçam recursos florais ou de nidificação a elas", conclui o pesquisador.
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