
Fronteira Brasil-Venezuela tem fluxo tranquilo neste momento
Nicolás Maduro caiu e os venezuelanos não festejaram. Pelo menos, não na Venezuela.
O presidente venezuelano foi capturado pelos Estados Unidos, mas não houve grandes reações no seu país. As pessoas retomaram seus afazeres, as ruas permaneceram vazias e o júbilo brilhou pela sua ausência. Houve apenas longas filas no comércio para conseguir produtos básicos.
Paralelamente, milhares de migrantes venezuelanos no exterior se reuniram em praças e bares, para comemorar com bandeiras e cornetas a queda do mandatário que eles responsabilizam pela crise que os expulsou da sua terra natal.
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No sábado (3), o exército americano bombardeou (para muitos, ilegalmente) diversos pontos do território venezuelano e conseguiu capturar Maduro, após enfrentamentos que deixaram dezenas de mortos.
No dia seguinte, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que trabalharia com a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, em busca de soluções para o país e para a sua poderosa, mas decadente indústria petrolífera.
Com isso, Trump ignorou a oposição venezuelana.
Até aqui fiel escudeira de Maduro, Rodríguez assumiu a presidência com o aval das instituições judiciais, políticas e, o mais importante, militares — que os venezuelanos culpam pela deterioração da qualidade de vida, pela precariedade dos serviços básicos e pelo empobrecimento do trabalho no país.
Maduro, pelo menos, estava algemado e derrotado. O presidente que zombou dos migrantes, perseguiu os dissidentes e liderou a destruição de uma das economias mais pujantes da América Latina havia sido castigado.
Mas, nas ruas da Venezuela, onde as pessoas passaram anos protestando até se cansarem ou serem detidas pela polícia, tudo seguiu seu curso normal.
O que é normal na Venezuela?
Como se explica que uma cultura tão vinculada a festas e à alegria não tenha comemorado a queda do presidente que muitos quiseram derrubar?
Prudência frente à repressão
Ruas de Caracas em 5 de janeiro de 2026
Reuters
Sociólogos e ativistas venezuelanos afirmam que grande parte desta reação está relacionada às eleições presidenciais de 28 de julho de 2024.
O pleito deu a vitória a Maduro, mas a oposição, liderada pela ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, apresentou ao mundo evidências de que seu candidato, Edmundo González, teria vencido com larga vantagem.
Desde aquele dia, o aparato repressivo do governo mostrou sua face mais vigorosa, detendo milhares de pessoas que atuaram como testemunhas e perseguindo qualquer um que manifestasse seu descontentamento nas ruas, na sua vida privada ou nas redes sociais.
Por isso, como ato de autodefesa, as pessoas decidiram deixar de se manifestar, em público e em privado.
Katiuska Camargo é líder comunitária popular e experiente do bairro de Petare, na capital venezuelana, Caracas. Ela é o tipo de pessoa que conversa com três dezenas de pessoas nas ruas, todos os dias.
Para ela, "daquele dia em diante, ficou consolidado o aparato repressivo mais cruel, mais duro, mais brutal e isso resume por que não estamos nas ruas."
Liguei para ela na segunda-feira (5). Camargo caminhava pelo emblemático bairro popular da capital.
Ela relatou que, nas ruas, havia "homens encapuzados com grandes armas patrulhando e revisando os status das pessoas no WhatsApp".
Dezenas de barreiras militares proliferaram em Caracas. Jornalistas estrangeiros não podem entrar.
O Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa relatou que 14 jornalistas foram detidos na manhã de segunda-feira e libertados em seguida.
Parece haver uma certeza na Venezuela: a repressão não desapareceu com a captura de Maduro. Ela se agravou. E já vinha se agravando.
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Caracas registrou proliferação de barreiras de controle oficiais e paramilitares em 5 de janeiro de 2026
EPA
Memória histórica
O sociólogo venezuelano e ativista dos direitos humanos Rafael Uzcátegui lidera atualmente o centro de estudos Laboratórios de Paz. Poucas pessoas conhecem tanto a mentalidade atual dos venezuelanos quanto ele.
Para Uzcátegui, "o autoritarismo conseguiu impor um medo estrutural. A prudência não é apatia; é aprendizado social sob repressão."
"As pessoas geraram um nível importante de consciência e amadurecimento político, baseado nas suas experiências anteriores, quando a mudança também parecia possível", segundo ele.
Ao longo de 25 anos de chavismo, diversos momentos sugeriram que haveria uma transição. Cada um deles é um mundo à parte.
Houve a tentativa de golpe contra o então presidente Hugo Chávez (1954-2013), em 2002; a greve dos petroleiros, em 2003; o referendo em que Chávez saiu derrotado, em 2007; a doença e a morte de Hugo Chávez, em 2013; os protestos contra Maduro, em 2014 e 2017; as eleições parlamentares vencidas pela oposição, em 2015; a tentativa de destituição de Maduro pela oposição, em 2019; e as eleições presidenciais de 2024.
Todos estes cenários geraram a esperança de mudanças, que logo ficaram truncadas.
É claro que a captura de Maduro é diferente. Trata-se da queda do líder inexperiente, que não era Chávez, que precisou recorrer à repressão e ao isolamento para se manter.
Sua captura é a evidência mais contundente, em 25 anos, de que pode haver uma transição de governo na Venezuela.
Trump fala sobre ataque à Venezuela
Reuters/Jonathan Ernst
Mas, a julgar pelas detenções de segunda-feira, pela presença de patrulhas nas ruas e pelas declarações de Trump, Rodríguez e seus aliados, existem fundamentos para falar em uma "transição sem transição", como definiu o centro de estudos Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos (WOLA, na sigla em inglês).
Esta seria, portanto, outra transição frustrada, mas com uma diferença. Desta vez, o venezuelano não parece desprevenido.
Pelo contrário, o cidadão venezuelano aprendeu a gerenciar suas expectativas, sem cair na euforia triunfalista do passado. E, sem ter expectativas, é provável que, desta vez, também não haja decepção, segundo os especialistas.
"A esperança se mantém, mas, como mecanismo de proteção, o que impera é um hiperceticismo racional", descreve Uzcátegui.
Caracas em 5 de janeiro de 2026
Reuters
A antropóloga venezuelana Mariana Vahlis, pesquisadora em doutorado na Universidade de Salamanca, na Espanha, acrescenta que "a quantidade de tentativas de produzir uma abertura democrática gera uma memória histórica do fracasso".
Para ela, "estas ações em busca de mudanças foram anuladas e, por isso, surge o manejo mais prudente das expectativas".
Além disso, Vahlis afirma que a crise foi tão forte que desenvolveu uma cultura de sobrevivência, que tenta concentrar a atenção no que é básico.
"O apego ao cotidiano faz com que as pessoas concentrem sua energia em conduzir as coisas elementares do dia a dia", segundo a antropóloga. "A necessidade de subsistência prevalece sobre todo o resto."
Nos últimos 25 anos, a Venezuela se transformou em um país dos arranjos, da informalidade, das distorções econômicas, do clientelismo. E os que ficaram se adaptaram. Eles "se viraram", segundo dizem.
Com isso, surgiu um país, uma economia, uma sociedade à margem da política, enquanto a política fracassava.
Agora, Maduro caiu e o venezuelano não está nas ruas, nem nas praias. Não comemora.
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