
Patrícia e Luz Morena, esposa e filha de Naná Vasconcelos, comentam o legado do artista
Um megamural chama atenção de quem passa pelo Centro do Recife, no bairro da Boa Vista. Ocupando 200 metros quadrados da fachada de um prédio próximo ao Parque Treze de Maio, uma pintura gigante retrata um artista de um legado ainda maior. Na imagem, Naná Vasconcelos, músico recifense que faleceu em 9 de março de 2016, é visto de olhos fechados, tocando um berimbau.
O instrumento de percussão que se tornou símbolo da sua arte também aparece em suas mãos numa estátua em sua homenagem no Marco Zero do Recife – local onde é montado o principal palco do carnaval da cidade. Após 10 anos de sua partida, Naná continua presente em pontos turísticos, centros de pesquisa, escolas e na vida e arte daqueles com quem conviveu (veja vídeo acima).
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"É bacana que se faça o mural, mas isso não está contando a história dele, é só mais um ponto de referência. A estátua é linda, mas isso é pouco para o que Naná representa. Naná teve muita profundidade no trabalho dele", disse ao g1 Patrícia Vasconcelos, viúva e curadora da obra de Naná.
O reconhecimento de Naná vai além dos limites geográficos do Recife. O músico, que por 15 anos foi responsável pela abertura do carnaval da cidade, foi eleito nove vezes o melhor percussionista do mundo pela revista Down Beat e venceu oito Grammys, entre latinos e estadunidenses, incluindo a categoria de Melhor Disco Estrangeiro (veja mais abaixo).
Estátua e megamural homenageiam Naná Vasconcelos no Recife
Daniel Tavares/Rennan Peixe/Montagem g1
Em 2015, meses antes de ele falecer, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). O reconhecimento veio aos seus 71 anos, para marcar a contribuição do artista no ensino e difusão da sua música.
Na ocasião, Naná fazia tratamentos contra um câncer de pulmão e soube que receberia o título quando estava no hospital. Na cerimônia, que aconteceu no teatro da universidade, ele estava rodeado de amigos e admiradores da sua arte.
"Ele ficou muito feliz. Foi justamente na época em que ele estava doente. [...] Foi lindo, o teatro ficou cheio, e ele tocou o berimbau. Ficou muito emocionado por esse momento. Ele deu toda a energia dele ali, naquele berimbau. Talvez essa tenha sido a última vez que ele tocou no berimbau completamente a peça que tinha preparado para tocar. Porque ele conseguiu tirar de dentro dele aquela força", lembrou Patrícia.
Naná Vasconcelos recebeu título de Doutor Honoris Causa pela UFRPE
Divulgação/UFRPE
'Encruzilhada de saberes'
Mesmo antes do título de doutor, Naná já era considerado pesquisador e educador de música. Ao longo de sua carreira, o recifense ensinou em escolas, projetos e instituições do Brasil e do mundo, como em Nova Iorque, nos Estados Unidos, e no Morro da Conceição, comunidade da Zona Norte do Recife.
Mas Naná também ensinava pelo exemplo, na prática, ensinando enquanto fazia sua arte. Diversos artistas deram seguimento ao seu legado na música, como Gilú Amaral e Mestre Lua, que seguem com seus projetos de percussão.
Para Lucas dos Prazeres, mestre de cultura popular e amigo de Naná, ter tido a oportunidade de passar mais de 12 anos acompanhando o artista foi uma forma de desenvolver seu talento. Eles trabalharam juntos na produção de álbuns, shows e turnês.
Ele conta que, mesmo com a fama internacional, Naná sempre foi genoroso e atencioso com a equipe.
"Eu gostaria de deixar registrada a imagem de Naná como uma encruzilhada de saberes. Uma encruzilhada que conecta pessoas, porque o tempo inteiro pessoas estavam se conhecendo através dele, que conectava linguagens. O tempo inteiro ele estava juntando uma linguagem com a outra, juntando um estilo com o outro", pontuou Lucas dos Prazeres.
Show 'Amém & Amém', com Lucas dos Prazeres (à direita), celebrou o legado de Naná Vasconcelos
Luiza Tojer/Divulgação
Essa característica de educador chegava de forma natural para Naná, que, segundo Lucas dos Prazeres, sabia reconhecer as individualidades de cada artista. No palco ou no estúdio, esses elementos eram valorizados pelo artista de renome internacional.
"Ele dizia 'poxa, fazer o que eu já faço, eu já faço. Não preciso de outra pessoa na minha banda que faça o que eu faço. É por isso que quando o Lucas chegou, ele ficou. Porque ele tem o próprio trabalho, a própria singularidade, a própria particularidade'", lembrou Lucas.
Imagem do percussionista Naná Vasconcelos
Nathália Martins/Divulgação
Para dar continuidade ao poder formativo do artista, a UFRPE criou a Escola de Música Naná Vasconcelos, onde aulas de percussão ficam disponíveis para a comunidade. O maestro Ewerton Marinho é professor no projeto de ensino, que preza pela experimentação, criatividade e improvisação.
"As escolas formais de música são muito tradicionais, conservadoras. Porque é um molde europeu que veio para o Brasil e a gente repete. É uma colonização. Então, nossa proposta já é uma quebra de paradigma. Você já pisa no chão descalço. Você não vai ver uma partitura de cara, você vai bater palmas", disse o maestro.
Ewerton Marinho também contou que se aprofundou na obra de Naná Vasconcelos só depois de já formado em música pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). "É como se ele tivesse se tornado um mestre póstumo para mim", pontuou.
Considerado um multiartista, não foi só na música que Naná fez sua contribuição. Sua filha, Luz Morena Vasconcelos, de 26 anos, atualmente é curadora de moda em Nova York, mas foi dentro de casa, com o pai, que ela tomou gosto pela arte.
"A presença do meu pai influenciou muito minha relação com as artes, por ele ser um artista tão amplo, que sempre trabalhava com várias coisas. Música, corpo, moda e tantas outras. É uma inspiração crescer ao lado de uma pessoa com a cabeça tão aberta para as artes que o mundo tinha a oferecer a ele", disse Luz.
'Suficiente para um museu'
Naná Vasconcelos convidava crianças para participar dos espetáculos musicais
Beto Martins/Acervo Naná
Atualmente, a família mantém um acervo com vídeos, fotos, instrumentos e registros históricos de Naná Vasconcelos. Mas, mesmo após uma década de seu falecimento, ainda não há um espaço onde todo o material possa ser conservado e exposto ao público.
Uma parte do acervo está armazenado no Museu de Artes Afro-Brasil Rolando Toro, no Bairro do Recife. Outras, estão em exposições no Brasil e no exterior, ou em reservas da família.
Patrícia Vasconcelos contou que, há anos, tenta articular a criação de um museu no estado, com mostra permanente onde o público possa visitar. "Eu tenho material suficiente para um museu. A história de Naná é suficiente para um museu", contou.
Fora de Pernambuco, a curadora afirma que já recebeu diversas propostas para abrir um espaço dedicado ao acervo de Naná, como em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Porém, ela disse que quer dar prioridade ao estado onde ele nasceu e passou seus últimos dias.
Percussionista Naná Vasconcelos ganhou reconhecimento internacional
Divulgação/Acervo Naná
Procurada pelo g1, a prefeitura do Recife afirmou que "para salvaguardar o legado de Naná, várias articulações já foram feitas". Informou, também, que um "debate em torno da possibilidade de criação de um espaço cultural dedicado ao artista aconteceu ao longo do ano de 2021, mobilizando diversas instâncias e instituições municipais e federais".
Mesmo assim, cinco anos após esse debate, um museu dedicado ao artista não foi criado ou projetado na cidade.
Em 2025, entre os meses de fevereiro e abril, o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães, mantido pela prefeitura, recebeu a Ocupação Naná Vasconcelos. A exposição imersiva saiu do Recife e seguiu para o Rio de Janeiro, onde ficou em cartaz no Museu do Pontal.
Já o governo de Pernambuco, por meio da Secretaria Estadual de Cultura (Secult), informou que, em maio de 2025, se reuniu com Patrícia Vasconcelos, ocasião em que ela "apresentou proposta voltada à criação de um espaço dedicado à preservação e difusão da memória e do legado artístico-cultural do músico".
A partir do encontro, a Secult:
"realizou levantamento de espaços pertencentes ao governo do estado que pudessem atender à demanda apresentada";
avaliou "um equipamento cultural estadual que poderá, em etapa inicial, abrigar um Centro de Referência e Pesquisa sobre a obra de Naná Vasconcelos";
"o espaço, no entanto, ainda demandaria adequações estruturais para eventual implantação e que poderá ser o ponto de partida para a criação de um museu";
fez "visitas técnicas ao local com a participação da equipe da Secult, da Fundarpe e da Sra. Patrícia Vasconcelos";
"as tratativas seguem em andamento, aguardando definição da família quanto à cessão do espaço".
Naná pelo mundo
Naná Vasconcelos toca berimbau em foto de arquivo
Divulgação/Acervo Naná
Firmar o acervo de Naná em Pernambuco também é uma forma de mostrar e valorizar as raízes que, em vida, ele sempre reverenciou. Ele foi cidadão do mundo, tendo morado em cidades como o Recife, Paulista e Olinda, na Região Metropolitana, mas também no Rio de Janeiro, em Paris e em Nova Iorque.
A fotobiografia "Naná: do Recife para o mundo", organizada pelo jornalista Augusto Lins Soares, retrata o trânsito cultural do artista. Publicada em 2022 pela Cepe Editora, a obra é dividida pelas cidades onde o artista fez morada.
"Naná é uma artista do Recife, mas que ganhou o mundo. E, digamos, o mundo também ganhou ele", afirmou Augusto Lins Soares.
No capítulo "Do mundo para o Recife", o jornalista, escritor, pesquisador de música popular José Teles fala do retorno de Naná para sua cidade natal.
Após essa retomada, no início dos anos 2000, Naná começou a ser figura importante na abertura do carnaval do Recife, subindo ao palco montado no Marco Zero acompanhando as nações de maracatu no espetáculo Tumaraca.
Tumaraca e o carnaval do Recife
Naná Vasconcelos se apresenta no palco do Marco Zero na abertura do carnaval do Recife
João Rogério Filho/Acervo Naná
Naná Vasconcelos foi responsável pela abertura do carnaval do Recife até 2015. Durante o Tumaraca, o músico se apresentava e abria os festejos na capital pernambucana. Luz Morena Vasconcelos também lembrou essa vertente multicultural da abertura do carnaval, pois viveu de perto a preparação do pai para os eventos.
"Uma coisa que eu gostava muito, já que sempre gostei de moda, é que ele, todo ano, gostava de desenhar a roupa que ia usar na abertura do carnaval. Ele sentia a energia de como ia ser a abertura daquele ano e desenhava o que queria vestir", lembrou.
A dedicação de Naná ao carnaval é tema de pesquisa realizada por uma cátedra que leva o seu nome na UFRPE, universidade que o concedeu o título de Doutor Honoris Causa.
O projeto, que prevê a publicação de um livro em maio de 2026, busca condensar os registros do músico à frente da abertura do carnaval.
"Ele redefiniu o modo de organização do próprio carnaval do Recife. Ela não era só uma abertura. O Naná ia antes para as comunidades, ensaiar com os maracatus, reunir mais de 500 batuqueiros, chamar grandes nomes da música popular brasileira e também nomes internacionais, tudo pelo prestígio e pelo lugar que ele ocupa na série musical internacional", conta Moisés de Melo Santana, coordenador-geral da cátedra.
A Cátedra Naná Vasconcelos é formada por artistas, pesquisadores, estudantes e gestores da UFRPE. A iniciativa é responsável por movimentar pesquisas, projetos de extensão, residências artísticas, formações para crianças e adultos, seja alunos da UFRPE ou de outras áreas.
Em coro com a fala da esposa de Naná Vasconcelos, o coordenador-geral da cátedra pontua que a salvaguarda do acervo e legado dele merece incentivo do poder público.
"Nós acreditamos, com uma certa indignação e espanto, que tanto no estado quanto na prefeitura, as iniciativas são muito tímidas em torno da obra de Naná. A gente acredita na importância de ter um memorial para a cidade, um museu Naná Vasconcelos, uma estrutura que preserve o legado e a obra dele", comentou.
*Estagiária sob supervisão do editor Pedro Alves.
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