
Saúde investiga morte de moradora de Paranapanema após vacina da dengue do Butantan
A filha da mulher de 48 anos que morreu em 1º de março, cerca de um mês após tomar a vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan, afirma que a mãe foi vítima de negligência médica. O caso é investigado como morte suspeita pelo Ministério da Saúde. A aplicação do imunizante foi temporariamente suspensa em todo o país na segunda-feira (8).
Daiane Diniz, de 31 anos, contou ao g1 e à TV TEM que a mãe, Ângela Diniz Marques, tomou a vacina no dia 29 de janeiro, por ser funcionária da área da limpeza do Hospital Municipal Leonardo Van Melis, de Paranapanema (SP), cidade onde morava.
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Os primeiros sintomas começaram a surgir por volta do dia 13 de fevereiro, quando Ângela fez uma ligação à filha dizendo que ela e outras pessoas estavam se sentindo mal.
"Ela me ligou dizendo que estava todo mundo 'empolado', com manchas espalhadas, dores de cabeça e no corpo, sem conseguir andar direito. Eu disse para ela passar no médico, porque esses são os sintomas da dengue. Sei que a vacina é feita com base no vírus vivo em baixa porcentagem, porém, o lote poderia estar com alguma dosagem errada", lembra.
Daiane diz que a mãe chegou a ir ao hospital onde trabalhava. No entanto, ela teve alta médica ao receber uma dose de bromoprida - remédio utilizado para controlar náuseas e vômitos. Na ocasião, Ângela já estava vomitando, com suores constantes e coloração pálida.
"Ela me disse que 'o médico não segurou ela'. Logo depois, minha mãe me mandou uma foto e eu vi que ela não estava bem de fato. Chamamos a ambulância e a enfermeira se recusou a atendê-la, porque a minha mãe era funcionária do hospital e ela não havia ido trabalhar no plantão dela. Ligamos para a minha tia, que também trabalha lá. Ao chegarem na casa dela, já encontraram minha mãe desacordada", conta.
Família alega que Ângela foi vítima de negligência médica
Arquivo pessoal
A filha afirma que, após ser novamente socorrida e levada a hospital municipal de Paranapanema, Ângela precisou ser transferida para a Santa Casa de Avaré (SP), onde deu entrada com suspeita de meningite e Acidente Vascular Cerebral (AVC). Para Daiane, a falta de comunicação sobre a possibilidade de uma reação à vacina prejudicou o atendimento prestado à mãe.
"Ela foi transferida para Avaré (SP) e, durante a transferência, aconteceu de ninguém que estava junto falar: 'Olha, nós tomamos a vacina e muitas pessoas tiveram reação, leves ou graves'. A médica que fez diversos exames relatou que não encontrou nenhum sintoma convulsivo nela e que não condizia com a suspeita apresentada", pontua Daiane.
"Não foi notificado e nem colocado nenhum documento de transferência de vaga zero [que obriga um hospital a receber um paciente em estado grave ou com risco de morte], nem a suspeita de vacina da dengue. Foi colocado apenas meningite e AVC. Fora ela, havia outros pacientes, da mesma cidade, que eram funcionários concursados e tiveram as mesmas reações, mas não foi notificado a nenhum órgão", completa.
Na Santa Casa de Misericórdia de Avaré (SP), o quadro de Ângela foi investigado como suspeita de encefalite pós-vacinal e vasculite periférica com trombose
Arquivo pessoal
Filha procurou a polícia
Antes da morte da mãe, Daiane havia procurado a delegacia da cidade para registrar um boletim de ocorrência e relatar a suposta negligência médica, que está sendo investigada como lesão corporal pela Polícia Civil.
"O delegado me disse que houve lesão corporal por ela, na época, estar na UTI. Eu notifiquei a prefeitura e cheguei a falar com o prefeito três vezes, mas ele me alegou que a contratação foi feita de forma terceirizada. Se há algum risco de apresentar sintomas, os vacinados precisam ser acompanhados com frequência", desabafa.
O corpo de Ângela passou por uma necrópsia antes de ser sepultado, com o laudo previsto para divulgação em julho. Conforme a filha, a mãe sempre foi a favor da vacinação.
"Além de gostar da área da saúde, já fazia um tempo que ela trabalhava na prefeitura. Sempre foi a favor da vacina e, independentemente, não tinha nenhuma comorbidade, doença rara ou grave que poderia agravar uma vacinação. Isso está sendo investigado até pela condução em si do que ocorreu com ela", complementa.
O que dizem os envolvidos
Em nota enviada à TV TEM, a Prefeitura de Paranapanema informou que segue as orientações do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) com relação à suspensão da aplicação da vacina.
O município ainda informou que, conforme informado pelos órgãos citados, não há confirmação de relação causal entre o imunizante e os casos investigados.
Ainda conforme a nota, a gestão municipal afirma que instaurou uma sindicância para apurar as alegações da família, processo que corre sob sigilo.
O Ministério da Saúde informou que descontinuará, de forma temporária, a estratégia atual de vacinação do Instituto Butantan contra a dengue. A medida foi adotada após o registro de 42 casos com sinais de alerta.
A pasta ressaltou que não se pode afirmar que os óbitos identificados foram causados pela vacina Butantan-DV.
"A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vai instituir um painel de especialistas, com representantes do meio acadêmico e da comunidade científica, para aprofundar a investigação sobre possíveis comorbidades, fatores de risco e outras situações que possam ter contribuído para os óbitos. A descontinuidade da estratégia de vacinação foi adotada por precaução até a conclusão da investigação e não invalida a eficácia da vacina nem altera as evidências de proteção observadas até o momento", diz a nota.
A produção da TV TEM também entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
Vacina da dengue do Butantan.
Governo de São Paulo/Divulgação
Casos
A suspensão da aplicação dos imunizantes ocorreu nesta segunda-feira (8), depois do registro de duas mortes suspeitas.
O Instituto Butantan disse que, seguindo as orientações do Ministério da Saúde e da Anvisa, a vacinação contra a dengue será temporariamente interrompida para reavaliação da estratégia vacinal. E que a medida busca garantir a segurança da população nas próximas etapas da vacinação.
Conforme o Ministério da Saúde, foram aplicadas 500 mil doses, sendo 417 mil apenas em profissionais de saúde. Entre os vacinados, foram registrados 42 casos de reações adversas severas, o que representa 0,008% do total. Desses, três foram classificados como graves, incluindo duas mortes que estão sob investigação.
Segundo o Ministério da Saúde, um dos casos investigados envolve a moradora do interior paulista. A morte ocorreu dezenove dias depois de ela ter recebido o imunizante. Ela desenvolveu sintomas de dengue grave associados a comprometimento neurológico, diagnosticado como meningoencefalite. Ainda segundo a pasta, o quadro teve evolução desfavorável e resultou em morte.
Outro caso investigado envolve a morte de um homem, de 58 anos, de Santo André, na Grande SP. As investigações ainda não permitem estabelecer uma relação causal entre a vacinação e o óbito.
A vacina e os testes
A vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan foi desenvolvida para prevenir a infecção pelos quatro sorotipos do vírus e oferece proteção por pelo menos cinco anos, além da reduzir significativamente o risco de formas graves da doença.
O instituto explica que o imunizante utiliza a tecnologia de vírus atenuado, popularmente chamado de vírus enfraquecido. Nesse tipo de vacina, há a manutenção de todas as características do vírus, mas com uma baixa capacidade de replicação, isto é, em uma dose que não é capaz que provocar a doença.
Com isso, a vacina induz o sistema imunológico a produzir anticorpos para combater esse agente infeccioso, além de gerar uma memória celular, responsável por guardar informações que vão ativar as células de defesa em caso de contato com o vírus já conhecido pelo corpo.
Conforme o instituto, a Butantan-DV se mostrou eficaz tanto em pessoas que já tiveram dengue quanto naquelas que nunca haviam sido infectadas. Além da proteção, ela reduz significativamente o risco de formas graves da doença.
O estudo sobre a vacina foi publicado na revista "Nature Medicine", em março, e mostrou que os eventos adversos graves ocorreram em proporções semelhantes entre vacinados e participantes que receberam placebo, sem sinais de problemas de segurança relacionados ao imunizante.
No estudo, foram mais de 16 mil voluntários acompanhados ao longo de cinco anos, com eficácia geral de até 80,5% de proteção contra dengue grave (quadro que leva à internação ou ao óbito). Ao longo dessa pesquisa, não foram registrados efeitos adversos graves ou mortes ligadas ao imunizante. A partir dessa análise, teve a eficácia e segurança comprovadas
Ao g1, especialistas explicam que nenhum estudo clínico consegue antecipar adversidades ou intercorrências.
Efeitos adversos raros dificilmente aparecem nas fases 1, 2 ou 3 de um estudo clínico porque não há participantes em número suficiente para torná-los visíveis.
Apesar do anúncio da descontinuidade temporária da utilização da vacina, ainda não é possível estabelecer uma relação de causalidade entre a aplicação do imunizante e os óbitos.
Quem foi vacinado, o que deve fazer?
No período de 21 dias após a imunização, é preciso observar:
Febre;
Dor abdominal intensa e contínua;
Vômitos persistentes;
Tontura;
Sangramentos;
Sonolência intensa;
Irritabilidade;
Sinais de desidratação;
Piora do estado geral.
Em caso de intensificação dos sintomas, o imunizado deve procurar uma unidade de saúde.
Diante desse cenário, a pasta recomenda que quem tomou a vacina nos últimos 21 dias deve fazer um acompanhamento em uma unidade de saúde local para observar se haverá ou não reações adversas.
A partir de terça-feira (9), o Ministério da Saúde também passará a orientar monitoramento ativo para casos na rede hospitalar de dengue em pessoas com vacinação recente, casos com sinais de alarme e óbitos.
A orientação é fazer o acompanhamento com aglomerados por lote, unidade ou território.
Vacina contra a dengue é suspensa
Instituto Butantan/ Divulgação
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