
Walerie Gondim interpreta Gal Costa (1945 – 2022) no musical em cartaz no 033 Rooftop, em São Paulo (SP), até 10 de maio
Edgar Machado / Divulgação
♫ CRÍTICA DE MUSICAL DE TEATRO
Título: Gal – O musical
Dramaturgia: Marilia Toledo e Emílio Boechat
Direção: Marilia Toledo e Kleber Montanheiro
Cotação: ★ ★ ★ ★
♬ Há passagens ritualísticas que atravessam os 150 minutos da encenação de “Gal – O musical”. Três entidades – Ereskigal, Gilgamesh e Inana, personificadas pelos atores Badu Morais, Marco França e Fernanda Ventura – expõem em cena a dualidade entre o masculino (representação do mal na vida de Gal) e o feminino (símbolo da potência artística da cantora).
Esse conflito de gêneros retrata a contradição que permeou os 77 anos de vida de Maria da Graça Costa Penna Burgos (26 de setembro de 1945 – 9 de novembro de 2022), cantora que o Brasil imortalizou como Gal Costa e que os dramaturgos Marilia Toledo e Emílio Boechat retratam em cena com todos os contrastes entre as luzes dos palcos – cenários da vida pública da artista – e as sombras dos bastidores de uma vida particular nem sempre harmoniosa.
Abandonada pelo pai Arnaldo Burgos (falecido em 1959) e criada pela mãe, Mariah Costa Penna (1905 – 1993), com quem desenvolveu relação umbilical, Gal vivenciou a dualidade existencial explicitada mais no segundo ato do espetáculo em cartaz de sexta-feira a domingo, até 10 de maio, no 033 Rooftop, espaço do Complexo JK Iguatemi, em São Paulo (SP).
Em cena, sob a direção de Marilia Toledo e Kleber Montanheiro, Gal é interpretada por Walerie Gondim, atriz que se destacou em recente musical sobre Djavan ao mimetizar a cantora baiana em número musical. Em “Gal – O musical”, auxiliada por caracterizações que roçam a perfeição, Gondim convence como Gal em todas as fases da vida da artista, da Gracinha introspectiva da cidade natal de Salvador (BA) à estrela que ganhou brilho crescente na medida em que se desenvolveu como cantora, a partir de 1965, na cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Ainda que a voz cristalina de Gal tenha sido única pelo timbre irreproduzível, Gondim se sai incrivelmente bem nos números musicais, sobretudo nos temas de maior vivacidade rítmica, casos da marcha “Balancê” (João de Barro e Alberto Ribeiro, 1937) e da marcha-frevo “Festa do interior” (Moraes Moreira e Abel Silva, 1981), e um pouco menos em composições mais complexas, como “O quereres” (Caetano Veloso, 1984), música ouvida ao fim do espetáculo como síntese da dualidade e da imprevisibilidade que moveram a vida de Gal Costa.
Walerie Gondim convence na pele de Gal Costa (1945 – 2022), artista de alma introspectiva que se agigantava no palco
Mauro Ferreira / g1
“Gal – O musical” procura se desviar dos formatos convencionais dos espetáculos biográficos, opção enfatizada pela disposição de algumas canções no roteiro musical iniciado com “Vaca profana” (Caetano Veloso, 1984), mas segue no primeiro ato uma linha cronológica que mostra a trajetória de Gal dos primeiros anos até a consolidação como cantora em plena efervescência tropicalista.
É nesse contexto que entram em cena personagens reais e fundamentais na vida da artista, como Caetano Veloso (pouco reconhecível no registro do ator Edu Coutinho), Gilberto Gil (vivido por Théo Charles), João Gilberto (1919 – 1931) – personificado por Vinicius Loyola, ator que sobressai mais na pele do cantor Tom Zé – e o empresário e produtor Guilherme Araújo (1936 – 2007), mentor da imagem tropicalista de Gal, bem representado por Ivan Parente.
Sem falar em Waly Salomão (1943 – 2003) (Roma Oliveira) e em Maria Bethânia (Calu Manhães), retratada no texto com caráter altruísta e – pela primeira vez em musicais de teatro – posta em cena sem tons caricaturais impostos em outros espetáculos para extrair o riso fácil do espectador.
Com a ação distribuída por três palcos, a encenação de “Gal – O musical” resiste à tentação de atiçar o canto da plateia no estilo karaokê adotado por muitos espetáculos do gênero. As músicas estão sempre a serviço da dramaturgia que enfatiza Gal como a voz feminina da resistência ao autoritarismo do regime militar instaurado no Brasil em 1974.
Sob esse prisma político, o samba “País tropical” (1969) é revivido com oportuno deboche, não como o manifesto ufanista imaginado pelo autor Jorge Ben Jor.
A relação artística entre Gal Costa (1945 – 2022) e Maria Bethânia nos anos 1960 e 1970 é retratada em cena em tons afetuosos
Edgar Machado / Divulgação
Se o primeiro ato culmina com a encenação de números do já mítico show “Fa-tal – Gal a todo vapor” (1971), com a canção “Como dois e dois” (Caetano Veloso, 1971) evocando a barra pesada daqueles anos rebeldes, o segundo ato abre com a figura também mítica da ialorixá Maria Escolástica da Conceição Nazaré (1894 – 1986), a Mãe Menininha, decantada por Dorival Caymmi (1914 – 2008) na música interpretada por Gal com Bethânia. Mãe Menininha simboliza em cena a busca de Gal por um norte espiritual.
Esse segundo ato aborda a formação do grupo Doces Bárbaros em 1976 – momento em que se ouve “Fé cega, faca amolada” (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1974) com Gal, Gil, Bethânia e Caetano – e a construção da imagem da “Gal tropical” com show e disco de 1979. A partir dai, a narrativa se desloca para a vida particular de Gal.
Vivido nos anos 1980, o romance da cantora com a atriz Lúcia Veríssimo ganha relevo na ação, com direito a duetos românticos nas canções “Lua de mel” (Lulu Santos, 1984) e “Sorte” (Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, 1985), em detrimento do longo relacionamento posterior de Gal com Wilma Petrillo, ignorado pelo texto.
A partir do rompimento do namoro com Lúcia, as sombras da alma de Gal dominam a cena, com a cantora deprimida em Nova York (EUA) e insensível aos apelos da mãe Mariah (Dani Cury, excelente desde a primeira aparição) para voltar ao Brasil. É quando as canções “Vapor barato” (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971) e “Recanto escuro” (Caetano Veloso, 2011) são ouvidas em cena, deslocadas do contexto original dessas músicas na trajetória de Gal, para enfatizar o momento dissonante da vida da artista.
Contudo, a voz tamanha citada em verso da letra “Força estranha” (Caetano Veloso, 1978) se fez ouvir mais alto. Como a ação do musical se encerra em 2007 com a adoção por Gal do filho, Gabriel, o público menos informado sai do teatro sem saber que as luzes do palco encobriram as sombras da vida de Gal a partir do renascimento artístico da cantora com o lançamento do álbum “Recanto” em dezembro de 2011.
Nem por isso “Gal – O musical” perde encanto. Mesmo com omissões, perdoáveis em dramaturgia criada para fugir do já repetitivo padrão biográfico, o espetáculo tem méritos para contentar os admiradores de Gal Costa, grande e imortal cantora do Brasil.
Gal Costa (1945 – 2022) tem parte da vida contada em musical de dramaturgia pontuada pelo embate ritualístico entre o masculino e o feminino
Edgar Machado / Divulgação