
Operação do Deic e Gaeco mira empresa de ônibus e vereador de SP
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), anunciou nesta quinta-feira (25) uma intervenção na empresa de ônibus Transunião, concessionária responsável por operar 50 linhas de ônibus na Zona Leste da capital.
A medida foi determinada após a operação da Polícia Civil e do Ministério Públicao de São Paulo (MP-SP) contra um esquema de lavagem de dinheiro da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte público, envolvendo a Transunião (leia mais abaixo).
Com a decisão, a gestão e a operação da concessionária passam a ser administradas pela SPTrans. Segundo a prefeitura, o objetivo é garantir a continuidade do transporte público na região e preservar os empregos e os contratos em vigor.
🔎 A intervenção é uma medida que permite ao poder público assumir temporariamente a administração de uma empresa que presta um serviço público diante de suspeitas de irregularidades. Nesse período, a empresa continua funcionando normalmente, mas a gestão passa a ser feita por representantes indicados pelo governo até que a situação seja esclarecida.
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB).
Divulgação/Secom/PMSP
Segundo Nunes, a intervenção será conduzida por uma equipe formada por representantes da SPTrans, da Procuradoria Geral do Município, da Secretaria da Fazenda e da Controladoria Geral do Município (CGM).
O interventor nomeado é Ângelo Fêde, funcionário de carreira da SPTrans há 49 anos e que até então era responsável pelo Grupo de Apoio Institucional da Diretoria de Operações da empresa pública.
Segundo a prefeitura, a Transunião opera dois lotes de transporte coletivo na Zona Leste, possui três garagens e transporta cerca de 262 mil passageiros por dia.
O prefeito também afirmou que a intervenção não provocará mudanças na prestação do serviço nem nos vínculos trabalhistas.
"É importante dizer, não terá nenhuma situação de paralisação dos serviços. Os funcionários da concessionária e os contratos com fornecedores da empresa também serão mantidos, com seus direitos respeitados, visando garantir o emprego dos trabalhadores e a operação do transporte coletivo público", afirmou.
Segundo a administração municipal, o decreto oficializando a intervenção será publicado em edição extra do Diário Oficial.
A prefeitura informou ainda que a Controladoria Geral do Município á vinha investigando as ações das concessionárias de ônibus da capital em conjunto com o Ministério Público e a polícia.
Funcionamento
Mais cedo nesta quinta, Ricardo Nunes disse que as linhas de ônibus operadas pela viação Transunião, alvo da Operação Última Parada, não serão paralisadas e que o serviço está garantido para a população.
"Estamos acompanhando o desdobramento da operação ao mesmo tempo em que temos toda a atenção para que o serviço funcione plenamente, o que tem ocorrido normalmente desde as primeiras horas da manhã”, declarou.
“Gostaria de lembrar que assinei dois decretos em 2024 para romper contratos com uma empresa de ônibus que teria relação com o crime organizado. Nossa gestão mantém o compromisso de oferecer o melhor serviço para os 7 milhões de passageiros diariamente na cidade. As medidas cabíveis em relação à empresa Transunião serão tomadas assim que a administração for notificada pelos órgãos competentes", afirmou.
A Transunião é a terceira empresa concessionária da Prefeitura de SP alvo de operação por supostas ligações com o crime organizado e facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Em abril de 2024, as empresas de ônibus UPBus e Transwolff também foram alvo da chamada ‘Operação Fim da Linha’ e tiveram seus contratos rescindidos pela gestão municipal, devido a um esquema de lavagem de dinheiro e ligações com o PCC.
A operação das linhas foi transferida para as concessionárias Sancetur e Alfa RodoBus.
Operação Última Parada
Operação do Deic e Gaeco mira empresa de ônibus e vereador de SP
A Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) deflagraram na manhã desta quinta-feira (25) a Operação Última Parada, contra um esquema de lavagem de dinheiro da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte público. Os agentes cumprem cinco mandados de prisão temporária e 104 de busca e apreensão.
Os três presos são o vereador da capital Senival Moura, do PT, Jair Ramos de Freitas ("Cachorrão"), diretor informal da empresa, e Devanil de Souza Nascimento ("Sapo"): motorista e homem de confiança do vereador.
Abaixo, veja quem são os demais alvos dos mandados de prisão:
Lourival Monário ("Orelha"): atual presidente, acusado de ser nomeado pelo PCC para garantir o escoamento de recursos ilícitos;
Leonel Moreira Martins ("Cabeça Branca"): supervisor operacional que atuava como o interlocutor direto do PCC dentro da empresa, transmitindo ordens da facção.
Números da operação:
Bloqueio de 117 veículos e 3 embarcações;
Sequestro de 21 imóveis;
Bloqueio de R$ 194.457.851,90 em contas dos alvos.
Os investigados são acusados de organização criminosa, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações públicas.
Com a operação, a diretoria da Transunião foi afastada e a Prefeitura de São Paulo, comunicada para que sejam tomadas as medidas administrativas cabíveis.
Em nota, a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte (SMT) e a SPTrans informam que "a operação dos ônibus da empresa Transunião segue funcionando, com a frota atendendo normalmente as linhas sob sua responsabilidade e sem prejuízo ao atendimento da população. A Administração Municipal aguarda a notificação oficial da decisão judicial para avaliar seus termos e definir as providências necessárias a partir de agora".
O prefeito Ricardo Nunes (MDB) informou estar acompanhando os desdobramentos da operação "ao mesmo tempo em que temos toda a atenção para que o servico funcione plenamente, o que tem ocorrido normalmente desde as primeiras horas da manhã".
"Gostaria de lembrar que assinei dois decretos em 2024 para romper contratos com uma empresa de ônibus que teria relação com o crime organizado. Nossa gestão mantém o compromisso de oferecer o melhor servico para os 7 milhões de passageiros diariamente na cidade. As medidas cabíveis em relacao à empresa Transunião serão tomadas assim que a administração for notificada pelos órgãos competentes", completou.
Os mandados estão sendo cumpridos em endereços da cidade de São Paulo, da região metropolitana e do município de Extrema (MG). A ação é conduzida pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP.
Ônibus da Transunião; foto de 2022
Abraão Cruz/TV Globo
De acordo com dados do SPUrbanuss, o sindicato das empresas de ônibus da capital, a Transunião opera 51 linhas de ônibus e transporta 389 mil passageiros por dia, atuando principalmente na Zona Leste da capital paulista.
Para cortar a influência dos investigados, a Justiça determinou o afastamento imediato de todos os atuais diretores e administradores da Transunião. Como o transporte de passageiros é um serviço essencial e não pode parar, a SPTrans foi notificada. Agora, o município precisa garantir que a frota continue rodando, seja decretando uma intervenção direta na empresa ou repassando as linhas da Transunião para outras viações da cidade.
Morte de ex-presidente e o início da investigação
O vereador Senival Moura, do PT, durante sessão de CPI na Câmara Municipal de São Paulo.
Divulgação/Rede Câmara
O inquérito que desencadeou a ação desta quinta começou a partir da investigação do assassinato de Adauto Soares Jorge, antigo presidente da Transunião, executado em 2020.
Documentos manuscritos conhecidos como "salves" do PCC revelaram que Adauto e o vereador Senival de Moura – apontado como o verdadeiro controlador da empresa – haviam sido condenados à morte por supostos desvios de valores da organização criminosa.
"A facção teria descoberto, então, que Adauto desviava dinheiro da empresa para subsidiar uma espécie de 'caixa dois' para as eleições de 2020, privilegiando diretamente Senival em sua campanha à reeleição como vereador de São Paulo", diz trecho da manifestação do MP.
As investigações apontam que Senival concordou com a execução de seu braço-direito e acabou sendo "perdoado" em razão de sua influência política e capacidade de ressarcir o prejuízo financeiro causado à facção.
Após o crime, o PCC teria nomeado Lourival de França Monário (vulgo "Orelha" ou "Lori") e Jair Ramos de Freitas (vulgo "Cachorrão") para assumir os cargos de presidente e diretor da Transunião e garantir o fluxo financeiro para a facção. Jair Ramos de Freitas é, inclusive, apontado pela polícia como o executor dos disparos que mataram Adauto.
Evidências reunidas pelas autoridades a partir do crime demonstram que a viação — que apenas no ano de 2025 recebeu mais de R$ 300 milhões do sistema de transportes paulistano — vinha sendo sistematicamente utilizada como uma engrenagem de lavagem de dinheiro do crime organizado.
Como funcionava o esquema
De acordo com o MP-SP e a Polícia Civil, a Transunião contava com a existência de um núcleo paralelo, que tomava as decisões operacionais da empresa e autorizava a transferência de grandes valores para criminosos ligados ao PCC.
A fraude atingiu até mesmo a constituição da empresa. A investigação aponta que a mudança societária da companhia teve origem criminosa: o capital social saltou de pouco mais de R$ 100 mil para mais de R$ 50 milhões sem que a origem desse dinheiro ficasse comprovada.
Essa elevação fraudulenta do capital social permitiu à Transunião participar e vencer licitações da Prefeitura de São Paulo para operar linhas do transporte público.
Bloqueio milionário e bens apreendidos
A pedido da polícia e do MP-SP, a Justiça determinou o sequestro de uma fortuna ligada aos investigados e à companhia. A lista de bens bloqueados inclui:
R$ 194 milhões em contas bancárias
117 veículos
21 imóveis
3 embarcações
Conexões com a máfia italiana
Os investigadores também constataram que o esquema usado pela Transunião tem ligação com outras grandes investigações, como a Carbono Oculto, a Vérnix e a Operação Mafiusi. Esta última, conduzida pela Polícia Federal no Paraná, focou no tráfico internacional de drogas e expôs a ligação direta entre o PCC e a máfia italiana 'Ndrangheta.
A ofensiva consolida as ações recentes contra a infiltração de facções nos contratos públicos da capital. Em 2024, o Gaeco deflagrou a Operação Fim da Linha, que desarticulou dois grupos suspeitos de lavar dinheiro de tráfico através da Upbus e da Transwolff. Juntas, essas empresas transportavam cerca de 700 mil passageiros por dia e, apenas em 2023, receberam mais de R$ 800 milhões em remuneração da prefeitura.
Dinheiro apreendido pela Operação Última Parada
Polícia Civil de SP
Objetos apreendidos na Operação Última Parada
Polícia Civil de SP
Objetos apreendidos na Operação Última Parada
Polícia Civil de SP