Neste mês de junho, dois países da América do Sul vizinhos ao Brasil vão decidir se querem ser governados pela direita ou pela esquerda nos próximos anos: Peru, neste domingo (7/6), e Colômbia, em 21 de junho.
Em ambos, as últimas eleições presidenciais foram vencidas pela esquerda. Mas agora, os candidatos da direita são favoritos após terminarem o primeiro turno na frente.
São eleições com potencial de inclinar o mapa político da América Latina de vez para uma direita alinhada ao governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, e isso pode ter impacto direto no Brasil, segundo analistas.
"Os americanos estão fazendo um círculo de fogo em torno do Brasil, e isso já está pressionando o país", analisa Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo).
Caso a esquerda saia vencedora, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode sentir um alívio por manter algum aliado ideológico na região, mas o cenário já é complicado para o Brasil, diz Carolina Silva Pedroso, pesquisadora do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
"Uma vitória da esquerda nesses países, principalmente na Colômbia, vai ser obviamente comemorada pelo Planalto. Mas não significa que a vida do Lula vai ser mais fácil. Só que não vai piorar", diz Pedroso.
No caso do Peru, as últimas eleições, de 2021, foram vencidas pelo dirigente sindical Pedro Castillo, que foi destituído do cargo e preso após tentar dissolver o Congresso no fim de 2022.
Desde então, o país vive uma duradoura instabilidade política, com uma sequência de presidentes que foi da vice de Castillo, Dina Boluarte, a membros do Congresso de diferentes correntes ideológicas. O atual presidente é José María Balcázar Zelada, um deputado de esquerda que assumiu o poder em Lima em fevereiro.
No domingo, a direitista Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, condenado por violações de direitos humanos, tenta pela quarta vez se tornar presidente. Ela enfrenta Roberto Sánchez, ex-ministro de Castillo que reproduz o estilo do ex-presidente preso.
Já a Colômbia vai decidir no fim do mês se dará continuidade ao projeto político de Gustavo Petro, ex-guerrilheiro que fez história ao se tornar o primeiro presidente de esquerda do país, ao vencer as eleições de 2022.
Como o país não permite reeleição, Petro apoia o senador Ivan Cepeda, que terminou o primeiro turno em segundo lugar. Na frente, ficou Abelardo de la Espriella, político da direita radical que se inspira em figuras como os presidentes Javier Milei, da Argentina, e Nayib Bukele, de El Salvador.
Mas como os resultados dessas duas eleições podem influenciar os rumos da região e o que elas sinalizam sobre o estado atual das sociedades sul-americanas?
Onda conservadora e o efeito Trump
As últimas eleições na América do Sul mostram um sinal claro de um giro à direita na região.
Em novembro de 2023, o libertário Javier Milei tirou a esquerda do poder na Argentina, com um ambicioso projeto liberal para a economia do país.
Em abril de 2025, o liberal Daniel Noboa conseguiu ser reeleito presidente do Equador, após assumir um mandato tampão.
Em outubro do mesmo ano, Rodrigo Paz, considerado de centro-direita, pôs fim aos quase 20 anos de poder do Movimento ao Socialismo de Evo Morales na Bolívia.
E, em dezembro, foi a vez de José Antonio Kast vencer a esquerda no Chile.
A exceção na região veio do Uruguai, que trocou a direita pela esquerda com a vitória de Yamandú Orsi, em novembro de 2024.
A esquerda ainda segue no poder na Venezuela. As contestadas eleições de 2024 deram vitória a Nicolás Maduro, que, no início deste ano, foi capturado pelo governo Trump em Caracas.
Desde então, a Venezuela é presidida por sua vice, Delcy Rodriguez, que tem mantido relações com os EUA e vem desmantelando o modelo econômico chavista.
Os dois países menos populosos da região e que não fazem parte da América Latina também são administrados por partidos ligados à esquerda: Guiana e Suriname.
Na América Latina, para além das fronteiras do Sul, a direita ainda obteve vitórias recentes nas eleições em El Salvador, Honduras, Panamá, República Dominicana e Costa Rica. A esquerda venceu no México e na Guatemala.
Com esse cenário, as eleições do Peru e da Colômbia podem fazer pender ainda mais o quadro político do continente para a direita, em um movimento que pode ser comparado com a chamada "onda rosa", quando diversos governos de esquerda passaram a governar países sul-americanos no início dos anos 2000.
"Se você olhar na história da América Latina dos últimos 20 anos, você nota esses movimentos para a direita e a esquerda. Agora, você tem uma maioria de governos de direita sendo eleitos na região, mas é sempre bom olhar para as especificidades de cada um dos países", diz Feliciano de Sá Guimarães.
Mas um fator essencial e em comum para esta onda de agora é a eleição de Trump nos EUA, em 2016 e 2024, segundo os analistas.
"Em termos históricos, é a esquerda quem tradicionalmente se organiza de forma internacional, mas com Trump foi se formando uma integração clara entre a direita na região", explica Pedroso.
"Isso agora está num processo de quase dez anos de consolidação de uma integração entre essa direita que acaba se influenciando mutuamente", avalia a professora, que aponta a vitória de Milei na Argentina como o ponto de virada dessa nova guinada à direita na América do Sul.
Para Sá Guimarães, além do fator Trump, a América Latina sofre de um problema estrutural que ele chama de "praga da incumbência".
"Aqueles que têm poder têm tido mais dificuldade de serem reeleitos", diz o pesquisador.
"É o descompasso de expectativas entre aquilo que os eleitores da América Latina esperam dos seus governos e a capacidade de os Estados frágeis entregarem benesses econômicas, sociais e políticas para os cidadãos."
No caso do Brasil, o presidente Lula enfrenta uma rejeição alta e uma dificuldade de reduzi-la, apesar de alguma melhora nas pesquisas mais recentes. Segundo o levantamento da Quaest em maio, 53% dos eleitores o rejeitavam.
Lula lidera as intenções de voto nas pesquisas eleitorais até agora, mas os levantamentos apontam para uma disputa acirrada em um eventual segundo turno entre o petista e os candidatos da direita que se apresentaram até agora.
Segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, Lula tem 46% das intenções de voto no segundo turno, contra 41% do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o adversário do presidente que aparece com folga como o melhor posicionado nos levantamentos do primeiro turno até agora.
Essa dificuldade de presidentes se reelegerem ou de fazerem seus sucessores explica, segundo Sá Guimarães, por que a balança de poder na América Latina tem variado rápido.
Em 2022, por exemplo, falava-se de uma onda à esquerda, após as eleições seguidas de vitórias desse campo político no México, Argentina, Bolívia, Peru, Honduras, Chile, Colômbia e Brasil. Agora, a onda rapidamente mudou.
Na avaliação do pesquisador, mesmo que a esquerda perca as eleições no Peru e na Colômbia, é preciso lembrar que as duas maiores economias da América Latina, Brasil e México, estarão, pelo menos até o fim do ano, nas mãos de governos de esquerda.
"Então, eu acho improvável que você tenha uma captura total à direita ou uma captura total da esquerda", diz Sá Guimarães.
O movimento atual, porém, tem um componente diferente e essencial para entender o estado atual das sociedades sul-americanas: a polarização e a direita indo mais para o extremo, rompendo com grupos tradicionais deste campo que governaram a maioria dos países por décadas.
"As eleições são um reflexo de algo que está mais presente na sociedade, que é esse radicalismo que tem pendido muito mais para a direita", explica Pedroso.
É o caso da ascensão dos chamados outsiders, figuras de grupos não tradicionais da política que chegam ao poder "implodindo" o sistema, como é o caso de Milei ou Bukele, com muita força nas redes sociais e sem serem bem captados em pesquisas de intenção de voto.
O novo representante desse grupo é justamente de La Espriella, na Colômbia.
"Há realmente uma dificuldade analítica de entender qual é a profundidade desse fenômeno dos outsiders na América Latina, porque as ferramentas tradicionais não conseguem detectar, mas está cada vez mais presente em todas as eleições", diz Pedroso.
Os impactos no Brasil
Há dez anos, Feliciano de Sá Guimarães estuda como os brasileiros acompanham a política internacional e que influência ela tem nas eleições.
"Temos mostrado aqui nas pesquisas da USP que política externa cada vez mais é um tema eleitoral, não é um tema decisivo, mas importante", diz o pesquisador.
Na sua avaliação, porém, o fator Trump é o assunto mais relevante neste contexto, com pouca influência para o que acontece nos países vizinhos do Brasil.
"Claro, a direita brasileira vai utilizar essas vitórias, caso elas ocorram, como uma tentativa de mobilização para mostrar que a direita está ganhando na região. Mas é mais importante o Trump do que essas duas eleições", diz Sá Guimarães.
Mesmo que os resultados colombianos e peruanos não influenciem o voto brasileiro, certamente haverá influência na forma como Lula ou um próximo presidente conduzirá sua política externa ou terá força no cenário internacional, ressalta Pedroso.
Caso Lula perca a eleição para um nome da direita, ainda assim Pedroso acredita que os resultados dessas duas eleições — e o tamanho da influência de Trump sobre a América Latina — terão impacto no próximo governo brasileiro.
"É um novo cenário complexo, em que os Estados Unidos entram de forma muito mais agressiva, não só com medidas econômicas, mas também com presença militar na região", diz.
Em segundo lugar nas pesquisas, o senador Flávio Bolsonaro tem se mostrado parte de uma direita latino-americana bastante alinhada a Trump, assim como Keiko Fujimori, no Peru, ou de la Espriella, na Colômbia.
Em maio, Flávio se encontrou com o presidente americano na Casa Branca, que o chamou de "um jovem que ama o Brasil". Logo após o encontro, o governo Trump classificou facções brasileiras como grupos terroristas, uma medida defendida pela família Bolsonaro junto ao governo americano há mais de um ano.
Mas os EUA também concluíram uma investigação que ameaça o Brasil com novas tarifas comerciais. Flávio negou ter sugerido essa medida e enviou uma carta a Trump pedindo que ele não taxasse o Brasil.
Isso mostraria como, mesmo sendo aliado e na hipótese de chegar ao Planalto, Flávio precisaria lidar com uma relação muito mais intrincada com os EUA, como explica Feliciano de Sá Guimarães.
"O objetivo americano é reduzir a crescente influência chinesa na América do Sul. E a maneira mais barata para eles é ter presidentes aliados aqui", diz o pesquisador.
"Mas acho que Flávio se engana muito se acredita que terá no presidente Trump um aliado de primeira hora. Existem questões estruturais do Brasil (como a relação com a China) que independem do presidente Trump ou de quem quer que esteja no poder nos EUA."
Em caso da permanência de Lula no Planalto, para a professora Pedroso, uma mudança no Peru seria "bem menos dramática para o Brasil" do que uma mudança na Colômbia.
Ela cita como exemplo as críticas constantes nas redes sociais que o atual presidente colombiano, Petro, faz a Trump e aos EUA.
"Isso, de certa forma, fortalece a posição do Brasil, porque, se o Lula não pode diretamente fazer esse tipo de crítica, tem um vizinho que faz", diz Pedroso.
"Os resultados acabam refletindo na forma como os nossos países vão lidar com essas questões todas que estão colocadas no mundo com a presença mais incisiva dos Estados Unidos", completa a pesquisadora.
Pedroso ressalta ainda que o que está em jogo também são questões que vão além da disputa político-ideológica, com os chamados "fenômenos transnacionais", que não respeitam as fronteiras.
Colômbia e Peru são países fronteiriços na Amazônia, com forte presença do crime organizado e narcotráfico. Ou seja, é preciso ter alguma afinidade entre governos para tratar de um problema comum.
Para Sá Guimarães, um eventual cenário de isolamento ideológico do Brasil teria fortes consequências na forma como o país consegue resistir à política de Trump para o continente.
"Uma coisa é você ter um adversário na Bolívia ou na Argentina. Outra coisa é você ter dez adversários. O fator agora são os Estados Unidos. E o presidente Trump procura isolar o Brasil", diz o pesquisador.

‘Castelo do Alemão’ em Peruíbe mistura lendas, história e mistério no litoral de SP
Mistérios e lendas rondam uma residência próxima à Estrada do Guaraú, em Peruíbe, no litoral de São Paulo. Conhecido como 'Castelo do Alemão' ou 'Castelinho', o imóvel alimenta o imaginário popular com histórias que vão de supostas ligações com o nazismo a relatos de cárcere privado. Entre pátios e torres, o local reforça a aura de mistério que chama a atenção de quem passa pela Prainha.
Inspirado na arquitetura medieval portuguesa, a construção ostenta brasões gravados nas paredes de pedra, grandes portões de madeira e cercas que reforçam sua imponência. Entre os símbolos espalhados pelo imóvel, chama atenção uma espécie de cruz, associada ao movimento neonazista da Lituânia.
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Ao g1, o historiador e secretário de Meio Ambiente de Peruíbe, Eduardo Ribas, revelou a verdadeira história por trás da construção erguida no fim da década de 1960 e esclareceu os boatos que se tornaram parte do folclore local.
Uma das versões mais difundidas afirma que o castelo teria sido construído por um alemão fugitivo da Segunda Guerra Mundial. Ribas, no entanto, garante que essa narrativa não passa de mito.
Castelo do Alemão’ em Peruíbe mistura lendas, história e mistério no litoral de SP
Reprodução/Youtube/Caçadores de Horizontes
“Ele não era alemão. O nome dele era Hardy Lopes Giusti. O apelido veio porque, em 1988, saiu no jornal que encontraram várias relíquias ligadas ao nazismo na casa dele, em São Paulo. A partir daí, começaram a chamar de ‘Castelo do Alemão’”, explicou.
Giusti era engenheiro e eletricista, e foi preso pelos crimes de lesão corporal dolosa, cárcere privado e omissão de socorro contra a própria mãe, em São Paulo. Essas informações, já citadas pelo historiador, foram detalhadas pelo Jornal do Brasil à época, e as lendas sobre o homem e a construção começaram a ganhar corpo.
De acordo com Ribas, o dono do 'castelo' era visto como uma figura excêntrica e enigmática. Pelas ruas de Peruíbe, aparecia sempre com camisa preta de manga comprida, calça preta e botas.
“Ele não tinha muito contato nem amizades. Se alguém se aproximasse do muro do castelo, chegava a dar tiros por cima da cabeça para afastar curiosos”, relatou.
Prisão, elementos nazistas e cárcere privado
‘Castelo do Alemão’ em Peruíbe mistura lendas, história e mistério no litoral de SP
Reprodução/Youtube/Caçadores de Horizontes
No dia 1º de junho de 1988, o Jornal do Brasil noticiou a prisão em flagrante de Hardy Lopes Giusti, então com 62 anos, após agredir e manter em cárcere privado sua mãe, Olívia Lopes Giusti, professora de piano aposentada, de 82 anos.
No sobrado onde vivia, em Pinheiros, zona oeste da capital paulista, a polícia apreendeu seis armas — entre elas um fuzil automático e uma metralhadora alemã calibre .45 — além de cerca de 3 mil cartuchos.
Também foram encontrados objetos e bandeiras de inspiração nazista, medalhas e condecorações semelhantes às usadas pelo regime, além de livros, como: “O nazismo sem máscara”, de Bauer Rois, e “Les Medicins Maudits”, de Christian Bernadac, cuja capa trazia uma suástica.
Os policiais localizaram ainda recortes de jornais sobre a Segunda Guerra Mundial e uma fita cassete com discurso de Adolf Hitler, o hino nazista, a Marcha Militar de Schubert e músicas de apologia ao regime.
Questionado, Giusti negou ter agredido a mãe, mas admitiu à polícia que a trancava em casa porque, segundo ele, ela não tinha condições de sair sozinha. Ele disse ser aposentado da Prefeitura de São Paulo, colecionador de armas e estudioso do nazismo, além de afirmar ter lecionado por 17 anos em uma universidade.
‘Castelo do Alemão’ em Peruíbe mistura lendas, história e mistério no litoral de SP
Reprodução/Youtube/Caçadores de Horizontes
A mãe, que apresentava sinais de perda de lucidez, disse aos policiais que o filho tinha ciúmes e, por isso, a impedia de sair à rua.
Ainda naquele dia, a polícia realizou uma busca na casa de praia de Giusti, em Peruíbe, na expectativa de encontrar mais armas. Não há registros sobre o que foi apreendido no “Castelo do Alemão”.
Morte e abandono
No início dos anos 1990, Hardy Lopes Giusti tirou a própria vida com um tiro na cabeça, dentro do castelo. Segundo o historiador Eduardo Ribas, o imóvel foi deixado como herança para uma sobrinha e para uma funcionária, como forma de quitar dívidas trabalhistas.
Com o tempo, a construção entrou em estado de abandono e passou a ter visitação proibida. Mais do que nunca, tornou-se cenário de histórias e lendas que atraem turistas e curiosos que passam pela região.
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