
Menos da metade dos alunos da rede pública no PR se sentem acolhidos por adultos na escola
Apenas 36% dos estudantes dos 8º e 9º anos de escolas municipais e estaduais do Paraná se sentem acolhidos pelos adultos, conforme uma pesquisa do Ministério da Educação (MEC). Entre os estudantes dos 6º e 7º anos, 54% sentem que os adultos os acolhem na escola.
Com o objetivo de entender qual o significado da escola para os adolescentes, a pesquisa ouviu 2,3 milhões de estudantes dos anos finais do ensino fundamental de escolas municipais e estaduais do Brasil inteiro. Desse total, 150.623 eram estudantes do Paraná.
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Ao contrário de outras pesquisas educacionais, que geralmente avaliam critérios técnicos como o grau de conhecimento dos alunos nas disciplinas, a pesquisa apostou em uma abordagem socioemocional da relação dos estudantes com a escola em busca de soluções para a construção da "escola do futuro".
"O desempenho educacional não vem sozinho. A escola precisa de todo esse apoio para que ela seja cada vez mais esse lugar de encontro, de vínculo, de desenvolvimento, de acolhimento, de pertencimento e de espaço onde os estudantes exercem empatia e criatividade", detalha Patricia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social, que prestou apoio técnico para o desenvolvido da pesquisa.
À nível nacional, enquanto 58% dos matriculados nos 6º e 7º anos concordam que são acolhidos por pessoas adultas, apenas 45% compartilham dessa percepção, entre o 8º e o 9º anos.
Segundo Gabriel Maia Salgado, gerente de Educação do Instituto Alana, o caminho para a construção de uma escola verdadeiramente acolhedora, que entenda as particularidades da adolescência, depende de soluções integradas e multifatoriais, que envolvem pais, alunos, professores e a própria comunidade.
"A gente precisa se perguntar: temos coragem de escutar as crianças e adolescentes? Se a gente pensar que crianças e adolescentes representam um terço da nossa população, e que elas não são escutadas, a gente está, como sociedade, perdendo uma grande oportunidade de construir com eles outros mundos, outras soluções para os problemas que a gente vem enfrentando amplamente", defende.
Menos da metade dos alunos da rede pública no Paraná se sentem acolhidos por adultos na escola
Roberto Dziura Jr/AEN
Para ele, o acolhimento dos estudantes integra as três dimensões fundamentais ao se pensar o direito à educação hoje: acesso, qualidade e permanência.
"Quando a gente olha para a permanência, a gente precisa pensar não só no tratamento com esses estudantes, mas também nas pessoas que dialogam e convivem com eles diariamente. Se a gente escuta que muitas vezes os estudantes têm sim um adulto de referência dentro da escola, mas que eles não se sentem completamente acolhidos, a gente precisa fortalecer os espaços de convivência, ampliar projetos em que eles possam trazer as suas inquietações, vontades, desejos, habilidades, saberes, culturas, conhecimentos."
A baixa percepção dos adolescentes neste sentido pode, naturalmente, refletir uma postura mais crítica e questionadora da própria faixa etária, como aponta o psicólogo e professor da Uninter, Cassio Gonçalves de Azevedo.
"É comum da adolescência esse questionamento dos padrões anteriores, dos pais, dos modelos que eles têm. Então eles precisam estabelecer novos modelos de identificação", explica.
Ao mesmo tempo que afirmaram que não se sentem acolhidos, os estudantes apontaram na pesquisa como reconhecem a escola como um espaço importante de socialização. Entre os paranaenses matriculados nos 6º e 7º anos, 85% afirmou terem amigos com quem gostam de estar. Compartilharam da mesma percepção 83% dos estudantes dos 8º e 9º anos.
"A gente costuma pensar muito na escola como essa coisa das grades, das disciplinas, e acaba esquecendo a dimensão experiencial, a vivência da escola, a socialização, o processo de troca, de relação. A escola continua sendo vista pelos jovens como um espaço privilegiado, porque existem jovens lá dentro, porque eles estão lá ocupando aquele espaço. É ocupar esse espaço como protagonista", detalha Azevedo.
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Desvalorização e desrespeito a professores na equação
Escola cumpre papel importante na formação cidadã das crianças e adolescentes
São minoria também os estudantes paranaenses que acreditam que os alunos respeitam e valorizam os professores. Entre os matriculados nos 6º e 7º anos, 36% têm essa percepção, contra 21% dos estudantes dos 8º e 9º anos. Nacionalmente, os resultados foram 39% e 26%, respectivamente.
"A gente precisa reconhecer esses meninos e meninas na sua diversidade e pensar com eles as melhores alternativas para que esse vínculo se restabeleça quando ele estiver perdido", defende Salgado.
O processo para pensar uma escola realmente acolhedora passa, também, pelo cuidado de quem cuida dos estudantes e, neste contexto, com atenção especial aos educadores.
O professor João Campos, da Campanha Nacional Pelo Direito à Educação, aponta a precarização das condições de trabalho no campo da educação como um dos obstáculos na criação da "escola dos sonhos".
"Quando você precariza o financiamento da educação, quando você não dá estrutura e não dá condições de trabalho para os professores e professoras, você vai ter um ambiente com certeza menos acolhedor", diagnostica.
Ele pondera ainda que um movimento focado na caracterização da figura do professor como "inimigo" da população também aconteceu nos últimos 20 anos, com ideias de que os educadores são "doutrinadores", por exemplo. Na percepção do professor, como resultado disso, a violência contra os profissionais da educação aumentou dentro de sala de aula.
Para Campos, o processo de transformar a escola em um espaço mais acolhedor passa pelo investimento multidisciplinar nos ambientes escolares – como bibliotecas, quadras poliesportivas, por exemplo –, pela formação continuada dos educadores, até a gestão democrática das instituições de ensino. "É o caminho do diálogo", resume.
Por fim, o professor avalia que a política educacional priorizada no Brasil hoje atua em busca de resultados, o que gera pressão aos educadores, enquanto a preocupação deveria ser focada na formação humana.
"Os estudantes não querem a escola como um espaço onde que eles precisam competir entre eles, que eles têm que demonstrar resultados. A escola, hoje, está muito mais preocupada com esses índices, com as metas que se lhes são impostas. Essa pressão acaba comprometendo a perspectiva da escola como um espaço de acolhimento, de formação humana, em que as pessoas estão ali preocupadas com o processo de aprendizagem, de desenvolvimento, com a saúde mental e emocional das pessoas", critica.
Os estudantes do Paraná também acreditam menos, em comparação com os dados nacionais, que os profissionais valorizam e respeitam os estudantes. À nível nacional, foram 71% dos estudantes dos 6º e 7º anos que concordaram com a afirmação, frente a 56% dos matriculados nos 8º e 9º anos. No Paraná, o número cai para 69% e 48%, respectivamente.
Neste contexto, o especialista Gabriel Maia Salgado destaca o papel importante da escola, por meio especialmente dos professores, na proteção das crianças e adolescentes, inclusive levando a atuação para além dos muros da instituição.
"Uma grande ponte de interlocução com o Conselho Tutelar para os casos mais sérios, inclusive, de violação de direitos e de violência contra crianças e adolescentes, é a escola. É a escola que acompanha todos os dias as crianças adolescentes, que sabe se ela chega ferida, se apresenta uma mudança brusca de comportamento, se ela fala que não comeu o final de semana inteiro."
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Em Curitiba, um exemplo de escuta ativa
Entre os especialistas entrevistados pelo g1, o consenso foi a importância de ouvir os próprios adolescentes na pavimentação de uma estrada para um futuro acolhedor. Segundo o levantamento do MEC, 23% dos estudantes dos 8º e 9º anos afirmaram que sentem que podem se expressar com liberdade.
Em Curitiba, uma escola da rede privada adotou iniciativas focadas na escuta ativa e que colocam o adolescente como protagonista. Uma delas, é o "Banco das Emoções", que deixa um assento posicionado no pátio da escola com indicações de sentimentos. O estudante que não consegue expressar pelo o que está passando pode se sentar nele e será acolhido por um adulto.
Escola Atuação implementou o banco das emoções para os alunos falarem sobre o que estão sentindo
Escola Atuação/Divulgação
A escola conta também com a "Brigada Anti-Bullying", formada por alunos dos anos finais do ensino fundamental, orientados por um professor. O grupo é responsável por ficar atento às dinâmicas entre os estudantes, podem ser procurados por alunos que estão passando por cenários de bullying e também levantam discussões sobre o tema a fim de mitigá-lo.
Helena Bittencout Pftizner, de 14 anos, está no 9º ano e, desde o começo de 2025, faz parte da brigada da escola. Para ela, a atividade passa por um processo de reflexão e confiança entre os próprios estudantes.
"A gente ajuda as crianças a se abrirem mais. Às vezes, ela não tem a oportunidade de falar para alguém e ela pode escrever em um papelzinho e, se ela se sentir confortável, ela coloca o nome da turma para a gente aprofundar mais e explicar", explica a estudante da Escola Atuação.
Espaço da Brigada Anti-Bullying na Escola Atuação
Escola Atuação/Divulgação
Esther Cristina Pereira, psicopedagoga que fundou o projeto na escola, destaca que o processo de escuta ativa passa, também, pelo fortalecimento da relação da escola com a família dos estudantes.
Conforme a psicopedagoga, a participação ativa dos estudantes nos projetos foi critério inegociável.
"Às vezes a criança não quer contar porque pensa que vai incomodar o pai e a mãe, ou que é besteira. Você tem que trabalhar muito isso dentro da escola: quando envolve sentimento, nunca é besteira [...] Se você quer resultado, você tem que colocar os envolvidos junto. A gente está muito feliz com o projeto, porque vê as crianças realmente procurando ajuda, vê eles sentados no banco esperando acolhimento", detalha.
Outras estratégias de acolhimento adotadas pela escola foram a "Sala do Diálogo", espaço usado para resolver conflitos que surgem dentro de sala de aula, e a figura do "professor coach", que tem a hora-aula livre para ouvir as reivindicações dos estudantes da escola.
No interior do PR, projeto isolado deu resultado e virou lei
Iniciativa proposta por estudantes e orientada pela professora Juliana Mayorca se tornou lei no Paraná
Arquivo pessoal
Estudantes dos anos finais do ensino fundamental também demonstram vontade de aprender com diferentes formas de participação, revelou a pesquisa do MEC.
Além das disciplinas tradicionais, os adolescentes disseram querer conteúdos ligados ao corpo, ao desenvolvimento socioemocional, às competências exigidas no mundo do trabalho e a temas como direitos, combate a preconceitos e discriminação. Também demonstraram vontade de aprender de formas variadas — como projetos voltados à resolução de problemas, atividades práticas, uso de tecnologia, trocas e debates, leitura e aulas de reforço.
Foi neste contexto que uma proposta idealizada por estudantes do Colégio Estadual Padre Giuseppe Bugatti, em União da Vitória, se transformou em uma política pública. Orientados pela professora Juliana Mayorca, os estudantes criaram a Campanha Permanente Orienta Paraná, voltada à orientação vocacional e ao planejamento de carreira dos estudantes.
O projeto foi desenvolvido no âmbito do programa Geração Atitude, que tem o objetivo de estimular o protagonismo juvenil e a formação cidadã entre estudantes do ensino médio da rede pública. A iniciativa é realizada pela Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) em parceria com o Ministério Público do Paraná (MP-PR).
Segundo a Secretaria Estadual de Educação do Paraná (Seed), além de orientar as escolhas profissionais, a iniciativa busca reduzir a evasão e a desistência precoce em cursos técnicos e de graduação. A proposta foi encaminhada para os deputados estaduais, que a aprovaram, e sancionada pelo Governo do Paraná. Ela está em vigor desde fevereiro de 2026.
A estudante Rita Lesnhak, de 18 anos, participou do projeto e comemora a possibilidade de poder ajudar outros estudantes.
"É muito gratificante saber que um projeto que começou dentro da nossa sala de aula foi reconhecido a ponto de se tornar lei estadual. Saber que uma iniciativa construída por estudantes agora pode auxiliar inúmeros jovens paranaenses é motivo de orgulho e também de muita responsabilidade", define.
Interação externa e interna na formação dos estudantes e da comunidade
Comunidade Escola leva serviços, lazer e artesanato para escolas aos sábados
Levy Ferreira/SMCS
Na pesquisa feita pelo MEC, 27% dos estudantes dos 8º e 9º anos afirmaram que interações além da escola poderiam ajudar. Desses, 41% apontaram visitas e passeios fora da escola e 13% interações com a comunidade dentro e fora da escola.
Em Curitiba, o Programa Comunidade Escola parte desse princípio, que valoriza a escola como espaço aberto de conhecimento. Aos sábados, 28 escolas municipais oferecem atividades para a população, como jogos, esportes, dança e música. Além de oficinas que atuam em eixos de inclusão social e digital e de empreendedorismo.
Em atividade desde 2005, o programa ultrapassou mandatos e contribui para a elevação dos índices de rendimento escolar e a redução dos índices de violência e da vulnerabilidade socioeconômica nas comunidades escolares.
"A gente fala muito sobre sair dos muros da escola. Aqui é o contrário: trazer a comunidade para dentro da escola", detalha Viviane da Cruz Leal Nunes Vitorino, professora responsável pelo Comunidade Escola na Coordenadoria de Projetos da Secretaria Municipal da Educação.
As escolas são selecionadas para participar do projeto com base nos índices de vulnerabilidade da região onde está inserida. Segundo Giselle Viviane Barcik da Silva, responsável pela coordenadoria de projetos da Secretaria Municipal da Educação, o primeiro impacto percebido é a mudança de relação da comunidade com a escola.
"É para que a escola seja mais um movimento de impacto naquela comunidade que mais precisa de um olhar social e aprofundando as políticas públicas. O primeiro impacto é que as pessoas passam a entender aquele espaço como 'meu'. Impacta a forma como eu trato a escola, como me reporto às pessoas da escola, como cuido do patrimônio da escola", aponta.
Para o especialista Gabriel Maia Salgado, pensar o vínculo da criança com o território é, também, uma forma de promover espaços de participação. O contrário também pode acontecer. Quando a escola abre as portas para a comunidade, a sensação de cuidado e pertencimento aumenta.
"É possível acreditar nos nossos estudantes e professores e confiar que eles podem desenvolver outras possibilidades de vínculo e de relação. Para isso, a gente precisa ter coragem de assumir alguns compromissos: escutar de maneira aberta, transparente e corajosa. Criar espaços para que eles possam se expressar com autonomia."
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